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Postado em por Redação em BlogsFranco Marciel

Rua do Jatobá

Por Redação

ua da minha infância. Rua alongada, de casas humildes. Margeia o velho Rio Mundaú. Seus moradores, simples, dedicados e sobretudo hospitaleiros, emprestam invulgar qualidade a artéria.

Ali, nasci e cresci. A casa s/n nos abrigava, transformada em aconchegante ninho. Era a época de minha infância, único bem de meu pai. Seu frontispício singelo com uma porta e duas janelas, nas quais lembro-me bem, meu pai colocava duas quartinhas de barro cheias de água de cacimba existente na vizinha Rua do Juazeiro, para receber a brisa noturna, tornando a água mais saborosa.

Em frente a nossa casa, isto é, nos fundos das casas que ficavam opostas, passava o trem da Rede Ferroviária antes Great Western. Na minha mente de criança, representava o trem espetáculo ímpar. Ao transitar várias vezes por dia, destinando-se ora a Maceió ora a Recife, era um deleite apreciar a Maria fumaça a turbar os céus com fumo saído da chaminé.

Recordações marcantes dos banhos todas as manhãs no Rio Mundaú (não poluído) no qual meu pai Francisco com espetacular paciência enfrentava as traquinices de meu irmão Jarbas (de saudosa memória), Margarida e minha, propensos nos três, mercê de energia de criança a consumir aquela paciência santa.

Nosso vizinhos, povo modesto. Dona Quina (Josequina) esposa do Sr. Manoel Marques, próspero comerciante de fumo. Suas filhas, quantas moças. Dona Lilí, vizinha de “parede de meia” a quem minha mãe depositava grande amizade e outras tantas. As festas da rua. Era sem artefatos modernos, porém na sua simplicidade apresentavam um caráter bucólico ao evento. Festa de Olegário. Moreno nosso vizinho que primava na organização da Festa de Santa Luzia.

A falta de energia elétrica dava lugar a iluminação através de lampiões de carbureto, que apesar de proporcionar luz fina, espargia o cheiro característico de carbureto. Não ficava para trás a festa de Maria Paixão. Sua casa ficava após a nossa em demanda ao centro da cidade. Maria Paixão era figura não só conhecida, mas querida dado a sua função de parteira.

Em sua festa Maria Paixão, detentora de mais requisitos artísticos que Olegário, procurava melhor agradar. A festa do senhor Santo Antonio, com seu mastro a ser erguido já com a bandeira do traumaturgo, se tornava apoteose dentro do contexto dos costumes ali desenvolvidos. Note-se que em todas as festas, a Zabumba era peça de suma importância. Em seu ritual, antes de terço ou da novena a Zabumba fazia sua reverência ao Santo da festa. Na sala da frente da casa da festa, o altar devidamente ornado, zabumbeiros sob as vistas do povo, faziam evoluções ao tempo que tocavam o “bendito” próprio. Seguia-se o foguetório.

Saliente-se os leilões. Ponto alto da festa. Víamos principalmente, as dondocas vestidas de papel crepon com várias saias sobrepostas, sempre de cor encarnada e azul, representando as duas cores da preferência do povo. Não faltava a caixa de segredos que despertando atenção dos curiosos, angariavam bom rendimento para a festa. A galinha assada, o pimentão cheio, melancias em bons tamanhos e outras frutas, faziam parte integrante dos leilões. Não havia parque de diversões.

Crianças deleitavam-se comendo amendoim, pipocas arrumadas como rosário que colocávamos no pescoço e cachorro quente, que era vendido em fogareiros improvisados em pequenas caixas de madeira, aquecida a comida em fogo de álcool.

Assim era a Rua do Jatobá de minha infância. Repleta de simplicidade e bondade. Ali, meu pai Francisco Viana “de quem sou eterno fã” era o amigo de todos, era o conselheiro de ricos e pobres, era a figura respeitada pelas suas previsões e opiniões, motivos que me cause maior inveja. Ao lado de minha mãe Maria do Carmo, incansável na confecção de costuras finas para o povo que residia no centro da cidade, local que somente passei a conhecer muito tempo depois, mercê da minha idade.

Hoje te vejo, Rua do Jatobá. Não sei a origem do teu nome. Sei que fostes rebatizada com o nome daquele que viveu ali, quase a totalidade de sua vida. Te vejo diferente na roupagem, mas fiel as raízes e és importante porque entre tantas outras coisas, recebestes e ostentas o nome do teu morador: Francisco Correia Viana.

Jairo Correia Viana
União dos Palmares, setembro de 1989

AGRADECIMENTOS: Madalena Sofia Galvão Viana.

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